Pela primeira vez na nossa história, o Brasil subiu ao pódio no International Physicists’ Tournament (IPT), um torneio de física a nível mundial. O terceiro lugar na competição foi conquistado por uma equipe de acadêmicos da Universidade Federal do ABC (UFABC), em Santo André (SP).  A competição aconteceu no início deste mês (1º a 8 de abril) em Moscou, na Rússia. Além de representar o país, a equipe está trabalhando para divulgar a ciência e incentivar os jovens.

O IPT é uma competição na qual os times devem resolver os problemas propostos da forma mais ampla possível. “Isto é, explicar os fenômenos envolvidos, fazer modelos teóricos, fazer experimentos, etc”, esclarece André Juan (20), estudante de Física e integrante da equipe. Não há uma resposta única pronta, então cabe à equipe pensar em soluções desde o início. Na edição de 2018 foram inscritos 21 equipes, de 20 países (duas equipes eram da Rússia). Como só haviam 18 vagas, foi feita uma pré-seleção e, no fim, somente 16 equipes puderam participar.

Os problemas são propostos com antecedência, e a equipe teve 8 meses para resolvê-los. Nos dias de competição, as equipes são separadas em grupos de três para os Physics Fights, nos quais cada time representa um “papel”. Acontece assim: o time A fica no papel do Apresentador, e demonstra a solução para um dos problemas propostos. O time B, então, assume a posição de Oponente, e seu papel é fazer críticas construtivas à solução apresentada pelo time A. Já o time C é o Revisor e sua missão é mediar o debate entre os outros dois times. Tudo isso é feito sob observação dos juízes, que avaliam como cada equipe desempenhou a sua função e atribuem notas aos times. Posteriormente, em um novo round, as equipes invertem as funções, de forma que todos interpretem todos os papéis. “Embora muito trabalho seja feito antes da competição, para a resolução dos problemas, os Physics Fights são a essência da competição, pois esta discussão toda visa simular como é o fazer científico em si, no qual saber muita física não é absolutamente suficiente para obter sucesso”, diz André Juan.

Foram 4 Physics Fights classificatórios, um de semifinal, de onde saíram os três finalistas, e mais um que determinou as posições no pódio. O Brasil conquistou o 3º lugar, ficando atrás da França (2º lugar) e da Suíça (1º lugar). Este é o melhor resultado que o país já conquistou nesta competição. Na edição do ano passado, que aconteceu na Suécia, o Brasil ocupou o 11º lugar geral, ficando na frente dos outro países das Américas (Venezuela, Colômbia e Estados Unidos).  Segundo os integrantes da equipe, a participação foi valiosa, pois os estudantes tiveram a oportunidade de estabelecer contatos com estudantes de outros países, de debater física com acadêmicos de universidades renomadas e de ganhar experiência em comunicar seus conhecimentos e atividades aos pares. “Isso mostra que a física brasileira é muito sólida, apesar de todos os problemas que enfrentamos”, diz André.

Para que o Brasil marcasse presença na competição, os estudantes tiveram que conciliar outras atividades acadêmicas com a resolução dos problemas. Além disso, uma viagem à Rússia não é barata e a equipe recorreu ao financiamento coletivo. Segundo eles,  não houve interesse de empresas em patrociná-los, e a ajuda da Universidade veio em forma do “Auxílio Evento”, que só cobre parte das despesas de deslocamento. Por isso, tanto para a participação deste ano quanto do ano passado, o grupo recorreu a Vakinha virtual, uma plataforma especializada em recolher doações para os mais diferentes projetos em troca de uma contrapartida dos receptores.

A Vakinha ainda está aberta, pois além de precisar de dinheiro para cobrir as despesas da viagem, os estudantes também estão arrecadando para realizar atividades de divulgação científica e incentivar jovens da região do ABC paulista a se interessarem por Física e Engenharia. Segundo o outro integrante da equipe, Ricardo Rodrigues Gitti, o grupo pretende realizar palestras para o público leigo, atividades junto a estudantes do ensino médio como shows de física, e publicar artigos científicos para contribuir com a construção do conhecimento na área. “As palestras que estamos construindo pretendem passar essa visão séria, compartilhar nossas experiências e mostrar como o conhecimento científico se insere no dia-a-dia através de experimentos lúdicos que prendam a atenção e podem ser explorados pelos professores para ensinar ciência”, diz Henrique Ferreira (24), mestre em física.

Além de crescimento pessoal, profissional e acadêmico dos participantes, a presença na competição tem grande valor para a ciência brasileira. Henrique afirma que a colocação na competição é uma oportunidade de mostrar ao país que é possível desenvolver ciência de alto nível mesmo com as limitações que tem. “O Brasil precisa de mais oportunidades iguais e de pessoas com dedicação e sonhos grandes! Espero que esse pequeno feito da nossa equipe possa servir de inspiração para outras pessoas!”. diz ele.

Os integrantes da equipe são os estudantes de engenharia Gustavo Saraiva e Ricardo Gitti, os graduandos em física André Juan e Matheus Pessôa e os mestrandos em física Andrius Dominiqui, Lucas Maia e Lucas Tonetto, liderados pelo mestre Henrique Ferreira. Para conhecer mais dos projetos de divulgação científica da equipe e contribuir para que eles saiam do papel, acesse: https://www.vakinha.com.br/vaquinha/mundial-de-fisica . A campanha já arrecadou 49.25 % da meta, e segue aberta até dia 25 de maio.

 

Imagem destacada: equipe brasileira que participou da competição. Reprodução/Facebook.

Por Bárbara Muller

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