Lá pela metade de “The House That Jack Built”, filme que marca o retorno de Lars Von Trier ao Festival de Cannes, o protagonista está empalhando meticulosamente o cadáver de um menino, rígido e todo coberto de bolhas de sangue, que sorri de forma macabra.  A essa altura, mais de dez pessoas já haviam deixado a sala de cinema, na manhã desta terça (15). Outras duas dezenas fariam o mesmo até o longa terminar numa projeção marcada por “uuuuus” de agonia vindos da plateia.

A produção, sobre um serial killer (Matt Dillon) que encara seus crimes como obras de arte, é o filme mais sádico e misógino da carreira de um cineasta que já era conhecido por ostentar esses mesmos adjetivos. É também uma reposta às críticas que o cercam e aos sete anos em que Von Trier foi banido de Cannes. Em 2011, neste mesmo festival, ele afirmou que podia “compreender” Hitler, o que o levou a ser expulso da mostra de cinema.
A obra é construída em torno de uma conversa entre Jack (Dillon) e Verge (Bruno Gänz). Quando o filme começa, com a voz de ambos soando da tela completamente escura, não se sabe onde eles estão nem quem são, exceto que acabaram de se conhecer.

O primeiro, então, começa a contar seus “incidentes”, que é como chama os assassinatos em série que cometeu. Em comum, o que há entre boa parte deles é que envolvem vítimas mulheres, retratadas como um tanto estúpidas e ingênuas. Os relatos das mortes são acompanhados de cenas bastante gráficas de estrangulamentos, alvejadas, seios decepados e golpes com ferramentas na cabeça. Em certo momento, Jack usa um rifle para matar dois meninos e sua mãe. Tudo é mostrado sem cerimônia.

Apesar do excesso de violência, o espectador nunca consegue ficar anestesiado no filme de Von Trier. A cada um dos incidentes narrados, o cineasta dinamarquês inclui uma cena de horror ainda mais indizível. O cineasta também usa o filme como provocação carregada de ironia. Acusado de misógino, ele inclui uma frase em que o personagem de Dillon questiona uma mulher “por que é tudo é culpa do homem”. Noutras, por puro fetiche, inclui imigrantes entre suas vítimas. Von Trier quer se provar a maior expressão do anti-humanismo no cinema.

Mas é na conversa entre Jack e Verge, cheia de menções filosóficas e estéticas, que reside a maior autorreferência. O assassino indaga sobre a ligação entre arte e moral, enquanto pipocam cenas de ditadores como Hitler (sim, de novo), Stálin e Mao. “Será que o artista que aborda o horror o faz para não cometê-lo na vida real?”, pergunta-se Jack, o serial killer, como um porta-voz imoral do próprio Von Trier.
*O jornalista se hospeda a convite do Festival de Cannes

 

GUILHERME GENESTRETI*
CANNES, FRANÇA (FOLHAPRESS)

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