Brumadinho: o velório do rio; veja imagens exclusivas

31 de janeiro de 2019


Quatro dias após um dos maiores crimes ambientais ceifar muitas vidas na cidade de Brumadinho, a reportagem do Portal Leiagora conversou com o repórter fotográfico cuiabano, Lucas Ninno, que esteve no local e presenciou de perto o horror e impacto advindos do rompimento das barragens.

Lucas voltava para São Paulo, depois de passar alguns dias em Brumadinho, quando começamos a conversar sobre sua estada em Minas Gerais.

Quando o rompimento da  ocorreu, Lucas estava na Avenida Paulista, em São Paulo, cobrindo as festividades de aniversário da cidade.

Mesmo sem recursos ou sem um trabalho encomendado, ele decidiu seguir para Brumadinho. Para economizar no transporte, o fotógrafo publicou nas redes sociais sua intenção procurando alguém para dividir os gastos com combustível, e foi.

O jovem e premiado fotógrafo contou que, assim que pisou no local, sentiu o clima de cidade sitiada, com muitos militares e bombeiros circulando, barulho de helicóptero o tempo inteiro e pessoas desorientadas e em estado de choque com o que havia ocorrido.

Ele conta que sua primeiras impressões, já em Brumadinho, foram muito marcantes e descreve a cena. “Tem uma ponte que passa pelo centro. Ela estava cheia de gente, observando o rio e uma das fotos que fiz foi de um cara que estava olhando aquilo tudo, o rio tava morto né, com aqueles animais mortos descendo junto com a lama. As pessoas disseram que era um rio de águas claras e muito limpas e agora elas estavam ali em cima daquela ponte, olhando o rio e me veio o pensamento de que parecia o velório do rio. O rio tá morto e as pessoas estavam ali velando ele, olhando pra ele sem dizer muita coisa”, descreve.

Ele conta que, de uma maneira geral, o sentimento na cidade não era tanto de tristeza – não se via tanta gente chorando – era mais de perplexidade e choque com o ocorrido e que, todos com quem conversou relataram a perda um amigo ou parente – 70% da economia da cidade depende da mineração.

Lucas explica que a barragem estourou, mas a lama não chegou no centro da cidade de Brumadinho, afetando mais algumas pequenas comunidades rurais, como o Parque da Cachoeira, que fica a 6km de Brumadinho, a beira do córrego do Feijão, onde boa parte dos rejeitos escorreu e virou um rio de lama parecido com a largura do rio Cuiabá, segundo ele.

Apesar de todos os riscos, ele afirma que em seu segundo dia no local não teve dificuldades de acesso e conseguiu acompanhar os bombeiros, que estavam permitindo que ele, e outros colegas de profissão, os acompanhassem em alguns locais. Porém a situação mudou e o acesso ficou restrito nas áreas afetadas.

“No terceiro dia depois que estourou a barragem, segundo dia que eu estava lá, soou aquele alarme que todo mundo ficou sabendo – inclusive a gente se assustou muito – a gente tava num hostel bem perto do rio Paraopeba e foi um clima de tensão. Após o alarme soar todos ficaram em estado de alerta com o risco de outra barragem estourar e foi bem tenso trabalhar a partir daí com esse risco eminente. A gente não sabia qual era a real situação dessa barragem”, conta ele, criticando ainda a falta de informações no local para a própria população.

“As informações estavam muito nebulosas para quem estava lá, pois estávamos com sinal de celular ruim, alguns lugares sem energia, então as pessoas não conseguiam saber qual era a real situação dessa outra barragem, se ela ia ou não estourar e tava todo mundo bastante assustado. Eu perguntei para pessoas da Defesa Civil e bombeiros se havia algum canal central de informações oficiais e eles não sabiam. Eles ficavam falando e gritando pela cidade e eu achei um absurdo. Se essa outra barragem tivesse estourado tinha morrido mais um monte de gente lá, pois as pessoas não tinham informações corretas” relata Lucas.

O repórter disse ter entrado no Twitter da Defesa Civil e dos bombeiros de Minas Gerais, em busca de qualquer informação oficial enquanto estava no local, mas não havia nada. “Como é que a população faz para se informar num caso emergência?  Daí começa aquela boataria, correndo desinformação no Whatsapp e todo mundo super assustado”.


Relatos do sofrimento visto de perto

“Em uma situação estávamos tentando entrar na Vale e a gente conseguiu chegar até o portão da mineradora e daí, lógico, que os seguranças enxotaram a gente de lá. E nesse caminho de volta a gente passou por um vilarejo chamado Tejuco, onde encontramos um senhorzinho pedindo carona.

Ele tremia muito e falava sobre o irmão que estava que estava na lama.

‘Eu sou de Belo Horizonte e vim com vinte reais no bolso para procurar ele, eu fui lá e os caras não me deixaram entrar!’ dizia o ele, contando que o irmão era engenheiro da Vale e era seu irmão mais querido, que ele queria ir lá, suplicando ajuda para pedirem a permissão para sua entrada.

Ele falava ‘eu vou cavar, eu vou achar ele’, suplicando em desespero”, conta Lucas.

Lucas e outro colega deram carona ao sujeito, que em dado momento disse que queria se matar, tamanho era o sofrimento e tristeza com a situação.

Apesar de tentar acalmar o homem, Lucas disse emudecer, sem saber o que dizer, diante daquilo. “Eu não sabia o que falar pra ele, eu vou falar o que, ‘olha, uma empresa bilionária matou seu irmão por negligência’, pois essa que é a realidade né. É uma gente pobre, sofrida, que trabalha a vida inteira e morre soterrada pela lama”, diz Lucas, com a voz embargada”, contando que ao final deixaram o homem no centro de atendimento.

“Eu sei que é uma coisa que muitas vezes jornalista não faz né, entrar na notícia, mas não tinha como ser frio a esse ponto ali, é muito triste, não tinha como não ajudar”.

Um outro caso relatado pelo fotógrafo foi de outro homem que cruzou seu caminho, subindo uma rua da cidade e, algum tempo depois, o encontrou no meio da lama, cavando com as mãos.

“Eu perguntei ‘o que você tá fazendo aí’, e ele me disse que tinha um monte de amigo soterrado e que ele iria tentar encontrá-los e seguiu cavando com as mãos no meio daquela lama tóxica.  É muito desespero sabe, um sentimento de muita impotência.

Eu já cobri uma outra tragédia – um incêndio de duas mil casas em Valparaíso, no Chile, onde morreram umas 15 pessoas e ficaram 12 mil desabrigados – mas isso aqui é diferente, porque não é um acidente, é uma coisa que tem a ver com toda a história do Brasil, da negligência, da corrupção, da ganância, falta de empatia. É o não pensar no outro.

‘Se a coisa acontecer e não me afetar tá tudo bem, eu sou o dono e pago um advogado e pronto, não vai acontecer nada’, é como eles pensam, Mariana taí pra mostrar isso.

É difícil lidar com a sensação de que as pessoas estão abandonadas. O empresário não dá o mínimo de segurança pro funcionário trabalhar. Para não gastar dinheiro não faz a manutenção correta da coisa, inclusive a gente, que é jornalista, sabe o quanto de risco que corremos trabalhando para alguns veículos, sem condições mínimas de segurança”, desabafa.

 

O profissional em Brumadinho

“Na era da desinformação nosso trabalho fica mais importante e com uma responsabilidade maior, em informar corretamente e dar a dimensão do que acontece. Por meio do nosso trabalho as pessoas começam a se organizar e criar alguns mecanismos para combater a origem desses males, então eu sinto orgulho de ter feito um trabalho que é um ponto, somado a tantos outros, profissionais, para que esse tipo de coisa não aconteça mais.

Lucas Ninno é natural de Cuiabá. Começou a fotografar em 2009 e trabalhou em jornais  locais como Diário de Cuiabá e Circuito Mato Grosso. Apaixonado pelo fotojornalismo, em 2013 mudou-se para Santiago, no Chile, onde trabalhou para a agência de notícias United Press International (UPI) cobrindo eventos como as eleições presidenciais, as históricas marchas pela educação gratuita e os Jogos Olímpicos Sul-Americanos. Pela agência Reuters, fotografou o Grande Incêndio de Valparaíso, em abril de 2014. As imagens estamparam a capa do site da agência e uma delas foi escolhida como “Foto da Semana” pela revista norte-americana Time. De volta ao Brasil, passou a se dedicar à fotografia institucional e publicitária, realizando trabalhos para diversas empresas e instituições como Nike, Samsung, Getty Images, Aprosoja, entre outros. Atualmente, vive e trabalha em São Paulo.

Todas as imagens tem direitos autorais reservados para Lucas Ninno

Direto da redação, Josiane Dalmagro

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