Com o fim do período de convenções partidárias, quando os partidos políticos decidem quem serão seus representantes e/ou coligações para as eleições, temos na mesa (praticamente) todas as cartas do baralho que será utilizado no jogo político nos próximos quatro anos.

Falar de política? Sério? Num espaço que se dispõe a falar sobre aspectos do cotidiano, da vida comum? Trazer um tema chato desses, que nunca muda efetivamente?

Sim! Sim, porque a política é um aspecto decisivo para o nosso cotidiano, desde as decisões econômicas que influenciarão a forma como utilizamos nosso dinheiro, o quanto gastaremos no mercado, na padaria, na farmácia; além de decidir sobre nossos direitos como cidadãos, nossas liberdades individuais, em temas como legalização do aborto ou de determinadas drogas para consumo.

Chato, porque temos uma ideia de que político é quase tudo igual, que os cenários não mudam muito independentemente de quem ocupe o poder. Às vezes, é até legítimo perguntar: por que pago tanto imposto? Para que, afinal, serve o Estado?

Quando relembramos a noção de biopoder, conforme cunhada pelo filósofo francês Michel Foucault, tendemos a pensar nas práticas e regulamentações, por parte dos Estados modernos, sobre os cidadãos para minimamente controlar corpos e populações. Um exemplo disso é uma discussão que tem surgido nos últimos dias, sobre médicos americanos alertarem para que cidadãos daquele país parem de lavar e reutilizar camisinhas. Tive alunos que acharam isso um verdadeiro absurdo e se perguntaram por que os americanos faziam isso. Acontece que um sistema universalizado de saúde, com a distribuição gratuita de camisinhas à população – dentre inúmeros outros serviços, é uma política de saúde do Brasil, não dos Estados Unidos. Ou seja, o governo brasileiro implantou essa biopolítica, ao contrário do governo americano, e por isso o estranhamento do jovem brasileiro com esse perigoso hábito americano.

Daqui a exatos dois meses, quando estivermos frente à urna para digitarmos os números daqueles que desejamos que nos representem no próximo período eleitoral, estaremos fazendo esse tipo de escolha também. Os candidatos terão a oportunidade de apresentar suas propostas nas próximas semanas. “Ah, mas as promessas políticas já são conhecidas pelo povo há muito tempo”, dirão muitos. Sim, são conhecidas por todos nós, como também é conhecida a cordialidade do brasileiro, descrita por Sergio Buarque de Holanda e aplicada, por exemplo, a uma apatia generalizada de nossa população em acompanhar os mandatos dos eleitos, cobrar compromissos assumidos em campanha e, em caso de descumprimento, retirar o mandatário de sua posição de exercício de poder, seja por um processo de impedimento, seja por não reeleger os mesmos de sempre.

“Mas houve um forte movimento popular, exitoso, para a saída de uma presidente da República!”, lembrarão outros. Sim, houve. Dilma Rousseff foi substituída por Michel Temer, e as políticas na área econômica (as mais questionadas na gestão Dilma, ruim nesse aspecto) continuam tão desastrosas quanto – ou ainda mais! – na gestão Temer, que se arrasta até seu fim com cortes orçamentários exorbitantes em campos fundamentais da vida social, como a educação, com protestos de múltiplos segmentos sociais e até com uma paralisação de caminhoneiros que praticamente parou o país semanas atrás. E não se veem as hordas nas ruas.

Sim, o brasileiro médio demonstra uma cordialidade mansa para com um determinado poder estabelecido, e os ocupantes desse poder sabem disso. Elegeremos mais do mesmo…?

As cartas estão na mesa.

Direto de Primavera do Leste-MT, Gabriel Oliveira

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