Minha primeira Copa do Mundo

7 de maio de 2018


Está chegando mais uma copa do mundo de futebol. Eu as vejo desde 1970, quando era Jules Rimet; quando lá na minha pequena Cosmorama aparelhos de televisão eram raridades. Mas, o seo Matiel tinha uma loja que vendia móveis e tevês. Ficava numa esquina bem comercial. A loja dele, a venda do Arlindão, o armazém do seo Domingos Pires e o hotel da minha madrinha, dona Cida, esposa do seu Eugênio.

Naquele meio de ano, eu estava morando com minha avó paterna, entre as casas do Tina e do Cuca, filho do Elpídio. Meu pai estava em São Paulo, trabalhando na construção do cemitério de Perus, e minha mãe estava na casa dos meus avós maternos, em Estrela D’Oeste, na Fazenda Santa Ana, bem na entrada da cidade, numa colônia de casas amarelas, com muito verde nos quintais.

Seo Matiel abriu as portas para todo mundo ver os jogos. Eu me sentei no assoalho de cimento bem na primeira fila, com o pé direito todo besuntado de pomada. Havia queimado o pé de manhã, jogando bola no terreirão da máquina de arroz do seo Hermínio Féboli. Estávamos todos eufóricos por causa da enorme propaganda sobre a copa. Era a época do “Pra frente, Brasil… salve a seleção”.

Tchecoslovákia… era assim mesmo, com k. Tinha sido vice-campeã no Chile. Vinha com uma boa fama e um grande goleiro, Viktor. Também com K. O frio na barriga passou logo. Metemos quatro gols. Petrás, deles, abriu o placar. Mas aí vieram Rivelino, Pelé e Jairzinho, este estava  inspiradíssimo e marcou dois. Os tchecos e eslováquios perderam todas.

O resto todo mundo sabe. Quando a copa terminou meu pé já tinha sarado. Meu pai já tinha voltado de São Paulo mais assustado que barata em galinheiro (um dia eu conto porque). Voltamos a morar em Cosmorama e logo depois nasceu minha irmã caçula, Lenita, por causa da jornalista Tia Lenita (a Figueiredo). Minha mãe amava este nome. Eu acrescentei Margarete por causa da Princesa Margareth, da Inglaterra.

Os campeões voltaram. Foram recebidos pelo Sr. Presidente Emílio Garrastazu Médici, ganharam Fuscas do Paulo Maluf e nós, bom… nós continuamos pobres, com salário congelados e poder de compra cada vez menor ano a ano. Militares e empresários, abençoados pelo regime, fizeram um pacto: o governo investia nas empresas para que elas crescessem e ficassem fortes, por meio de salários baixos, para depois, então, “repartir o bolo com os trabalhadores”.

Os empresários “esqueceram” de repartir o bolo com os pobres, preferiram repartir entre eles. Era o Brasil do ame-o ou deixe-o.

E tem gente que sente saudade deles!

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