Das bestas humanas

5 de dezembro de 2018


Quando se retoma a memória do (batido) discurso de “o melhor amigo do homem”, quase que automaticamente vem à mente a ideia do cachorro, tão forte a presença dele na nossa cultura.
De fiel companheiro de caça a companhia doméstica, passando pela atividade de cuidar da casa, há quem os considere membros da família. A sua perda pode significar uma espécie de luto que dura dias, causando sofrimentos nos humanos. Costuma ser a alegria das crianças, e também de vários adultos.
A relação do homem com o cachorro tem várias facetas e já foi retratada em livros, filmes e séries. O cão herói que auxilia o policial na sua luta contra os bandidos. O cão atrapalhado que transforma a vida do dono num quase-inferno, e mesmo assim é amado. O cão-guia, parceiro quase inseparável do deficiente visual. O cão na cultura, dos quadrinhos do Snoopy aos desenhos animados de Scooby-Doo.
Há um mercado todo voltado para eles, que vai desde os passeadores até os mega petshops com seus produtos e serviços, por vezes, extravagantes. Nesse meio tempo há toda uma indústria de roupas, brinquedos, rações e remédios, e dos serviços veterinários. A lista parece interminável.
Mas, evidentemente, como todo mercado que se preze, o mercado pet também possui suas margens, e os que ficam do lado de fora, os marginalizados. Assim como vemos humanos abastados e humanos que passam fome sem terem onde morar, vemos também animais nesses extremos. O cachorro de madame contrasta com o vira-latas (ou SRD, sem raça definida, um eufemismo linguístico que tenta maquiar uma realidade, como tantos outros) que perambula pelas ruas de qualquer cidade do Brasil. Quem nunca viu um?
Em alguns casos, estes “perdidos” são encontrados e adotados como mascotes em alguns locais. Tão frequente é sua presença, humanos acabam por estabelecer um contrato de troca com cachorros que ganham alimento e abrigo em troca de algum serviço, como alertar quanto à presença de invasores no local ou mesmo servir de companhia. No campus Primavera do Leste do Instituto Federal de Mato Grosso | IFMT, assim que cheguei para assumir meu cargo como docente em 2016, os estudantes alimentavam e cuidavam de dois cachorros que viviam nos arredores da cantina. Nomeados “Seu Pai” e “Sua Mãe”, o casal era manso, simpático e, de alguma forma, creio que acalmasse angústias naturais de adolescentes quanto a si mesmos, à vida, aos estudos, simplesmente por abanarem o rabo e darem meio minuto de atenção. Para alguns, uma terapia!
Tudo isso acima é para tentar minimamente contextualizar o ocorrido na unidade de uma grande rede de supermercados em Osasco, região metropolitana de São Paulo, poucos dias atrás. Um vira-lata que já era frequentador conhecido do local teria sido cruelmente torturado e morto por um funcionário responsável pela segurança da empresa no próprio local, numa tentativa de afastar o animal das dependências do mercado. O ato foi presenciado por testemunhas e até filmado por câmeras do estabelecimento.
O caso gerou comoção e revolta em alguns frequentadores do mercado, e rapidamente tomou as redes sociais e até portais de notícias e telejornais de grandes redes de comunicação, a grande maioria num forte tom de reprovação pelo ocorrido. As associações de defesa dos direitos dos animais dizem estar – e esperamos que realmente estejam – tomando as providências cabíveis, algumas até chamando um boicote à rede. Várias personalidades do mundo do entretenimento já se pronunciaram a respeito, a imensa maioria lamentando o ocorrido.
Este que vos escreve faz coro a este lamento. Sabe-se que a crueldade humana pode atingir níveis estratosféricos, em especial com relação ao mais fraco, seja este mais fraco um animal ou até mesmo outra pessoa. Basta fazer a separação simbólica entre “eu” e “o outro”, e o ser humano está pronto a cometer atrocidades de que nenhuma outra espécie conhecida é capaz, de violências bestiais.
Mas, um aspecto dessa história é pontual: surge um clamor por justiça, mas o que cada um de nós efetivamente faz no cotidiano para proteger os animais do sofrimento? Evitamos comprar animais caros, “de raça” vendidos em lojas e cujo processo de reprodução envolve crueldades absurdas? Colaboramos para com as associações de ajuda aos animais? Adotamos animais disponibilizados por essas associações?
Mais ainda: como enxergamos os humanos em condições análogas às desses animais?

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