“Quanto ‘Vale’ ou é por quilo?”

2 de fevereiro de 2019


O título deste texto é cheio de leituras possíveis, pois sua já natural polissemia, inserida no atual contexto, permite a construção de diferentes efeitos de sentido que, em comum, questionam o “status quo”, ou aqueles que ocupam determinadas posições no sistema.

A pergunta acima é título de um filme brasileiro de 2005, de Sergio Bianchi, que faz uma comparação entre o antigo comércio de escravos e a contemporânea autopromoção baseada na exploração da miséria. A obra explora uma espécie de solidariedade de fachada mantida por ONGs e sua captação de recursos. “Quem financia a solidariedade hoje está preocupado com o retorno” é uma frase marcante pronunciada por uma das principais personagens da obra. Este retorno em marketing pessoal pode gerar forte lucro – não apenas, mas também financeiro.

Defensores questionarão uma espécie de retroalimentação: determinadas figuras ajudam a angariar mais doações, que ajudam a mais pessoas e tais ações promovem ainda mais tais figuras, que angariarão ainda mais doações… e todos saem ganhando. A lógica tem um fundo até baseado em alguns dogmas religiosos: praticar o bem para ganhar a aprovação divina ou algo do tipo.

Os que se opõem questionam as reais intenções por trás das tais boas ações. Que pessoas só fariam isso para receber o prêmio ali adiante, sendo, no fundo, egoístas. Além, é claro, de defenderem a possibilidade de se fazer caridade sem se autopromover.

Entendo ser um tema bem complexo, pois compreendo ambos os argumentos como válidos. E escrutinar as vastas profundezas por trás das intenções humanas não me soa como uma tarefa humana a se fazer, não o vejo capaz de seguramente apontar um resultado confiável neste campo. Isso porque o contingente de pessoas que desconhece seus próprios desejos – ou prefere não os encarar – e, portanto, não sabe onde está nem como atingir a seu próprio gozo não é pequeno!

Dito isso, volto-me à tragédia ocorrida com o rompimento da barragem de rejeitos de mineração em Minas Gerais poucos dias atrás. O fato é recorrente, pois há pouco mais de três anos, algo muito similar aconteceu em outra barragem controlada pela mesma empresa e no mesmo solo mineiro. As perdas humanas e ambientais são imensuráveis.

A Vale, uma das maiores empresas de mineração do mundo, controlava as duas barragens. Tenho sérias dúvidas se “controlar” é o verbo mais adequado para me referir à relação da empresa com essas suas instalações, bem como para com seus funcionários, para com as comunidades vizinhas e para com a natureza, donde ela extrai o produto que é – ou deveria ser – a principal razão de sua existência.

No primeiro caso, a Vale, juntamente com outras duas empresas que formavam um consórcio, assinou um “termo de transação de ajustamento de conduta” com os governos federal, mineiro e capixaba, regiões atingidas pelo rompimento da barragem do Fundão. Como resultado, dentre outros, surgiu a “Fundação Renova”, responsável por conduzir as ações – hoje com cronograma atrasado – de reparação, restauração e recuperação socioeconômica e socioambiental das áreas afetadas.

Com os protelamentos jurídicos efetuados pela Vale, muito pouco foi feito até agora. E, com a vasta semelhança entre os ocorridos, entende-se que a conduta da Vale não parece ter sido muito ajustada.

Ficam muitas questões sem resposta. E os custos estatais, como obras para evitar inundação pela lama tóxica, a compra de água para abastecimento, os salvamentos? E a receita turística do histórico município de Mariana? E as vidas humanas? E o meio ambiente? O retorno aos acionistas paga tudo isso?
Afinal, “Quanto ‘Vale’ ou é por quilo?”

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