O perigo do saber

5 de fevereiro de 2019


Quem trabalha na Administração Pública convive com esse risco todos os dias. Saber não é garantia de permanecer no cargo público, especialmente aqueles de livre nomeação e exoneração pelo gestor. Quando se trata de Controlador Interno o risco de ser exonerado é enorme, pois basta aplicar seus conhecimentos na função de fiscalizar, que logo vem o alerta. “se continuar assim, vai ser exonerado”.

Lidar com ignorantes é vantajoso para o gestor descompromissado, pois não é questionado e ainda recebe elogios. Isso quer dizer que o que interessa para o gestor é que o Controlador seja ignorante.

Pois se o Controlador apresentar procedimentos e rotinas que impõe termos técnicos e obrigações de ser transparente e honesto, a resposta vem logo “não sei o que ele está pretendendo”. As orientações técnicas são ignoradas pois o que interessa é o lado político da ação.

Claro que existem as exceções, muitos gestores depositam total confiança em profissionais sérios e comprometidos. Eu já vivi uma experiência extremamente válida de 2009 a 2011 em um Município onde fui gestor, o sucesso da administração municipal foi extraordinário, graças aos conhecimentos aplicados com seriedade. Mas isso é uma situação rara, encontrar uma gestão politicamente correta.

O que tem valor nesse cenário político partidário, é carregar votos, ter influencia política, participar de campanhas, dedicar-se as atividades dos partidos, isso sempre é mais importante que a competência técnica. Muitos gestores se vangloriam de resultados que não teve sua colaboração para que acontecesse. Os poucos resultados eficientes que a Administração Pública demonstra, foram alcançados graças ao esforço e o conhecimento de profissionais técnicos.

Quando algo sai errado, o gestor logo procura alguém para responsabilizar. Mas, quando o profissional técnico tentou explicar as regras para alcançar os objetivos da Administração, ele não quis ouvir, muitas vezes desdenha, dizendo que isso sempre foi assim e que não vai dar nada. Os especialistas (técnicos) são julgados como burocratas, chatos, enjoados e inconvenientes. Por isso é melhor ficar fora das reuniões da equipe de correligionários.

No entanto, quando esse mesmo gestor vai ao médico, sem entender nada de medicina, ele dedica atenção ao médico com calma e presteza, mesmo sem entender nada daquela linguagem. Quando entra em um avião, mesmo sem ver o piloto, ele confia, que aquela aeronave será comandada por uma pessoa competente sem coloca-lo em risco. A razão de acreditar nesses profissionais é que sabe que o médico se formou depois de anos na faculdade. O piloto só está ali porque teve várias horas de voo e de simuladores, até ser autorizado a pilotar, mesmo assim, tem um piloto de salvaguarda (copiloto).

Mas no profissional que estudou anos e se especializou em gestão pública, direito público, contabilidade pública e outras áreas afins, não é dado nem ouvido. Com isso criamos uma cultura que o bom contador é aquele que aprova as contas do Prefeito, sem se importar com a qualidade das demonstrações contábeis, o bom assessor é aquele que encontra soluções que atendam os interesses políticos, o bom Controlador é aquele que fica quieto no seu canto.

Ou seja, a rejeição aos conhecimentos técnicos é em momentos de conveniência do gestor descomprometido. Esse mesmo gestor não voaria em um avião onde o piloto nunca havia feito aquilo antes, ou aceitaria um diagnóstico de um médico que não demonstrasse conhecimento o suficiente. Mas para gerir o dinheiro público rejeita a ciência e aceita conselhos de qualquer leigo. Esse é o caminho do fracasso e do caos administrativo.

Carl Sagan (EUA) disse uma vez: “Podemos julgar nosso progresso pela coragem dos nossos questionamentos e pela profundidade de nossas respostas, nossa vontade de abraçar o que é verdadeiro, ao invés daquilo que nos faz sentir bem”.

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